O 2T26 terminou com o petróleo de volta ao nível pré-guerra, mas os juros não acompanharam: o Fed passou a cogitar alta e o Copom se aproximou do fim dos cortes. No M&A, menos negócios e cheques maiores.
O trimestre em seis datas
O choque do petróleo passou; o do custo de capital, não. Com juro real acima de 9%, o comprador de 2026 paga por previsibilidade, não por promessa.Leitura Magma
Cenário Global: Ormuz reabre, mas o Fed muda de tom
A guerra no Golfo dominou o trimestre até o acordo de 14 de junho. Quando o petróleo cedeu, a inflação americana já havia mudado o discurso do Fed.
Brent: do prêmio de guerra ao nível pré-conflito
Cotações de referência no trimestre, em US$ por barril
Federal Reserve: estreia de Warsh, viés de alta
- O FOMC manteve os Fed Funds em 3,50%–3,75% em abril e em 17 de junho, primeira reunião de Kevin Warsh como presidente, por 12 votos a 0.
- O comunicado retirou a sinalização de cortes. A mediana do dot plot subiu para 3,8% no fim de 2026 (ante 3,4% em março), e 9 dirigentes passaram a ver ao menos uma alta.
- O PCE cheio chegou a 3,8% em abril, maior desde 2023 (BTG). O mercado passou a precificar alta até outubro.
- Para o Brasil: juro americano maior por mais tempo reduz o diferencial de juros e pesa sobre o real.
Geopolítica e commodities
- O conflito EUA–Irã, iniciado em 28 de fevereiro, restringiu o Estreito de Ormuz por mais de três meses, rota de cerca de 20% do petróleo global.
- No auge, o Citi chegou a traçar cenário de US$ 150 por barril. O acordo de 14 de junho derrubou o Brent para US$ 83,75 no dia.
- Em 25 de junho, o barril voltou a US$ 72, abaixo do nível da véspera da guerra.
- O Brasil saiu como exportador líquido de energia: produção recorde de 4,3 milhões de barris/dia em abril e superávit comercial projetado de US$ 85–90 bi (XP e BTG).
Motores corporativos: tecnologia sustenta o crescimento
- O investimento em tecnologia e IA respondeu por 1,6 p.p. do crescimento dos EUA no 1T26, principal vetor da economia americana (BTG).
- O M&A global caminha para cerca de US$ 4 trilhões em 2026, um dos melhores ritmos desde o pico de 2021.
- Na Europa, o choque de energia pressionou mais os preços que a atividade, e o BCE passou a sinalizar alta de juros.
A geopolítica deixou de ser o principal risco no fim de junho, mas o juro global ficou mais alto. Para valuations no Brasil, isso mantém taxas de desconto elevadas mesmo com o petróleo mais barato.
Cenário Doméstico: atividade, política e fiscal
O Brasil cresceu acima do esperado no início do ano, com impulso fiscal e de crédito, mas a inflação subiu, as expectativas pioraram e a dívida avançou.
Focus no 2T26: inflação e juros esperados para cima
Mediana do Boletim Focus para 2026 nas edições disponíveis do trimestre
PIB e inflação
- O PIB cresceu 1,1% no 1T26 sobre o trimestre anterior, puxado por consumo e investimento. O Focus de 29 de junho projeta 1,99% em 2026.
- O IPCA subiu 0,58% em maio e chegou a 4,72% em 12 meses, acima do teto da meta.
- O Copom projeta IPCA de 5,2% em 2026; os bancos estão entre 5,3% e 5,5%.
- A confiança da indústria (FGV IBRE) subiu a 100,1 pontos em junho, com a distensão no Oriente Médio, e o uso da capacidade instalada foi a 83,0%.
Panorama político e regulatório
- Pré-campanha: o Datafolha de 17 a 19 de junho mostrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 31% no 1º turno, e 47% a 43% no 2º turno, empate técnico. Em abril, o senador liderava a simulação por 46% a 45%.
- Escala 6×1: a Câmara aprovou no fim de maio a PEC que encerra a escala. No Senado, a votação tende a ficar para depois da eleição. A indústria estima alta de preços de 6% a 8%; o BTG vê risco de cerca de 0,3 p.p. no IPCA de 2027.
- Relação entre Poderes: o Senado rejeitou em 29 de abril a indicação de Jorge Messias ao STF, sinal de atrito entre Executivo e Congresso.
- Percepção externa: o fluxo cambial do ano até maio somou US$ 14 bi, o maior em nove anos (BTG), mas o Itaú aponta o ciclo eleitoral como fator de pressão sobre o real.
Fiscal, Selic e câmbio
- A dívida bruta chegou a 81,1% do PIB e a líquida a 67,9% em maio. Os juros nominais somam 8,48% do PIB em 12 meses, e o déficit primário, 1,14%.
- As medidas parafiscais desde meados de 2025 já somam cerca de R$ 275 bilhões, com R$ 142 bi adicionais na economia em 2026 (BTG). O Itaú estima que estabilizar a dívida exige ajuste de cerca de 4 p.p. do PIB.
- O Copom cortou a Selic de 15% para 14,25% em três reuniões (março, abril e junho), e passou a admitir pausas. O Focus vê 14,00% no fim de 2026 e 12,00% em 2027.
- O câmbio projetado pelo Focus está em R$ 5,20. Entre os bancos, a faixa vai de R$ 4,90 (BTG) a R$ 5,30 (Itaú).
O estímulo fiscal sustenta a atividade, mas mantém o juro alto e a curva longa pressionada. Para quem vende empresa, o ciclo eleitoral pede processo bem preparado e cronograma realista; para quem compra, mais proteção contratual.
Atividade de M&A: menos transações, cheques maiores
Até maio, o Brasil somou 499 transações e R$ 149,1 bilhões. O número caiu um terço, mas o capital mobilizado cresceu, puxado por operações estratégicas de grande porte.
Em todas as leituras do semestre, o número cai e o valor sobe
Volume vs. qualidade
- Até maio, o número de operações caiu 34% e o capital subiu 9% (TTR Data). Só em maio foram 62 deals e R$ 19,4 bi.
- A KPMG registrou 318 transações no 1T26: queda de 26% em número e alta de 400% em valor, com megadeals em telecom e transformação digital.
- Os Estados Unidos lideram os investimentos no país, com 54 aquisições até maio.
- O Brasil respondeu por cerca de 65% do valor de M&A da América Latina no 1T26.
Valuation gap e proteção de risco
- Selic a 14,25%, juros longos pressionados e eleição indefinida ampliaram a distância entre preço pedido e oferecido.
- Ferramentas que destravam acordos: earn-outs, escrows, seguros de R&W e cláusulas MAC entre assinatura e fechamento.
- A volatilidade do petróleo e do câmbio reforçou mecanismos de ajuste de preço por capital de giro e dívida líquida no fechamento.
Setores em destaque
| Setor | Sinal do trimestre |
|---|---|
| Real Estate | Setor mais ativo no ano, com 81 transações até maio (TTR Data) |
| Tecnologia e Software | 78 transações até maio; IA e automação entre os motores de valor (TTR Data e KPMG) |
| Minerais críticos | USA Rare Earth fechou acordo para comprar a Serra Verde (terras raras, GO) por cerca de US$ 2,8 bi, em 20 de abril |
| Agro e Bioenergia | Amaggi assinou em maio a compra de 40% da FS, líder em etanol de milho, em operação submetida ao Cade |
| Telecom e Infraestrutura Digital | TIM concluiu em maio a compra dos 51% restantes da I-Systems (fibra óptica) por R$ 947 milhões |
Apetite dos investidores
- Private equity: seletivo e focado em escala. Na América Latina, foram 58 transações e US$ 9,4 bi até maio: −15% em número, +113% em valor (TTR Data e Datasite).
- Estratégicos: lideram os grandes negócios, financiando com balanço próprio e buscando verticalização e segurança de suprimento.
- Estrangeiros: o Brasil foi visto como vencedor relativo no choque de energia, o que sustentou o interesse em ativos de commodities, energia e infraestrutura.
- Middle market: concentra as oportunidades, com múltiplos de entrada mais atrativos e menor concorrência por ativo.
O capital existe, mas está concentrado em ativos com tese clara. Empresas com governança, demonstrações auditadas e capital de giro bem definido fecham mais rápido e com menos ajustes de preço.
Matriz comparativa de projeções consensuais
Os bancos convergem em PIB perto de 2% e inflação acima do teto, mas divergem na Selic terminal (13,75% a 14,25%) e, sobretudo, no câmbio: R$ 0,40 separam a projeção mais otimista da mais conservadora.
| Indicador econômico (2026) | Itaú Unibanco | Bradesco / BTG | XP / J.P. Morgan | Focus (29/jun) |
|---|---|---|---|---|
| Crescimento do PIB | 2,1% | 2,0% / 2,0% | 2,0% / — | 1,99% |
| Inflação (IPCA) | 5,4% | 5,3% / 5,3% | 5,5% / — | 5,33% |
| Taxa Selic (fim de ciclo 2026) | 14,00% | 13,75% / 14,25% | 14,00% / — | 14,00% |
| Câmbio (USD/BRL, fim de 2026) | R$ 5,30 | R$ 5,00 / R$ 4,90 | R$ 5,00 / — | R$ 5,20 |
| Dívida líquida (% PIB) | — | — / 68,7% | — / — | 67,9% realizada¹ |
| Dívida bruta (% PIB, projeção) | 82,8% | 82,7% / 80,9% | 83,3% / — | — |
- Dado realizado de maio de 2026, divulgado pelo Banco Central em 30 de junho; não é projeção do Focus.
- Datas das projeções: Itaú, 26 de junho; Bradesco, 29 de junho; BTG, 10 de junho; XP, 3 de junho.
- O J.P. Morgan não divulga grade completa ao público. No trimestre, manteve recomendação overweight para ações brasileiras, com meta de 190 mil pontos para o Ibovespa no fim de 2026.
Onde estão as divergências
- Selic: o BTG vê o ciclo encerrado em 14,25% já em junho; Itaú e XP esperam um último corte, para 14,00%; o Bradesco vê dois cortes, até 13,75%.
- Câmbio: BTG, XP e Bradesco apostam no superávit do petróleo para sustentar o real (R$ 4,90 a R$ 5,00). O Itaú vê depreciação a R$ 5,30, com petróleo mais barato, Fed duro e eleição.
- Inflação: todos acima do teto de 4,50%; a XP é a mais pessimista, com 5,5%.
Recomendação de alocação por classe de ativos
A visão consolidada dos research no fim do 2T26 é de renda fixa como prioridade, com bolsa seletiva e posição tática em ativos que ganham com a queda do prêmio de risco.
| Classe | Posição | Racional |
|---|---|---|
| IPCA+ (NTN-B) | Sobreponderar | Juros reais em níveis historicamente altos e proteção contra choques de oferta; prioridade nas carteiras da XP para o 2º semestre |
| Pós-fixados (CDI) | Sobreponderar | Selic de 14,25% remunera bem a liquidez e preserva opcionalidade para a volatilidade eleitoral |
| Ações defensivas | Neutro a sobrep. | Energia elétrica, saneamento e telecom: caixa previsível e dividendos em ambiente de juro alto |
| Bolsa brasileira (visão J.P. Morgan) | Overweight | Meta de 190 mil pontos para o Ibovespa; Brasil como beneficiário relativo do choque de energia |
| Ações domésticas cíclicas | Seletivo | Fim próximo dos cortes da Selic limita o ganho com juros; preferir balanços desalavancados |
| Internacional (Tech/IA) | Manter | Investimento em IA segue como motor de lucros; Fed com viés de alta pede seletividade |
| FIIs de papel (high grade) | Preferir | Recebíveis indexados ao IPCA capturam o juro real; preferência citada pela XP |
| FIIs de tijolo | Cautela | Taxa de desconto elevada pressiona o valor dos imóveis |
| Commodities (energia e agro) | Tática | Petróleo devolveu o prêmio de guerra; El Niño forte é risco para grãos em 2027 |
O Copom de agosto e as pesquisas eleitorais. Um último corte com expectativas estáveis abre espaço para ativos sensíveis a juros.
Rompimento do acordo EUA–Irã com nova alta do petróleo, combinado a um Fed que confirme a alta de juros sinalizada no dot plot.
Fontes utilizadas
Relatórios e publicações de análise econômica, política e de transações corporativas divulgados entre abril e junho de 2026.
- Itaú UnibancoItaú Macro Research, Revisão de Cenário de 26 de junho
- BradescoDepartamento de Pesquisas e Estudos Econômicos, revisão de 29 de junho
- BTG PactualBTG Macro Strategy, Cenário Macro de junho de 2026
- XP InvestimentosXP Macro, relatório mensal de junho e Onde Investir no 2º semestre
- J.P. MorganLatin America Equity Strategy
- Banco Central do BrasilBoletim Focus, comunicado do Copom de 17 de junho e Estatísticas Fiscais de maio
- Federal ReserveComunicado do FOMC e Resumo de Projeções Econômicas de 17 de junho de 2026
- FGV IBRESondagem da Indústria de junho
- IBGEContas Nacionais do 1T26 e IPCA de maio
- DatafolhaPesquisa de intenção de voto para presidente, junho de 2026
- TTR DataRelatórios de M&A Brasil e América Latina até maio de 2026
- KPMGPesquisa Trimestral de Fusões e Aquisições, 1T26
- Aon, TTR Data e DatasiteRelatório de M&A na América Latina, 1T26
Conteúdo informativo elaborado pela Magma Transações Societárias a partir de relatórios públicos de instituições financeiras. As projeções refletem a posição das respectivas instituições em junho de 2026 e podem ter sido revisadas depois. Este material não constitui recomendação individual de investimento.